sexta-feira, 16 de junho de 2017

A LUTA CONTRA O PECADO
                        (Série Vida Cristã - I)

“Quando um homem se torna melhor, compreende cada vez mais claramente o mal que ainda existe em si. Quando um homem se torna pior, percebe cada vez menos a sua própria maldade” (C. S. Lewis).

A humildade é um claro sinal de maturidade cristã na jornada em busca de uma vida íntegra, pois é fruto da compreensão da nossa total dependência de Deus. Quanto mais buscamos uma vida íntegra na presença de Deus, mais somos confrontados pelo Espírito nas áreas da nossa alma que precisam de conserto, perdão, libertação e cura. E esse confronto gera um espírito de humildade, pois percebemos quem somos e o quanto necessitamos do Senhor em nossas vidas. Outro sinal de maturidade cristã é o contentamento, pois não nos aproximamos do sol ao meio dia sem percebermos a sua luz. Ao nos aproximarmos do Senhor perceberemos, sempre, a Sua bondade nas pequenas e derradeiras coisas da vida. Se você deseja avaliar o crescimento espiritual de um amigo, ou seu próprio, observe a humildade o contentamento.

Devemos lembrar que a busca pela integridade denuncia o pecado. Richard Baxter, teólogo e homem piedoso, autor de mais de 130 livros, afirma em seu livro ‘O pastor aprovado’ que "é mais fácil julgar o pecado que dominá-lo” e desafia-nos a vigiarmos para "não suceder que convivamos com os mesmos pecados contra os quais pregamos”. Em Gn 17:1 lemos que Deus disse a Abraão: “Eu sou o Deus todo poderoso; anda na minha presença e sê perfeito”. Andar na presença de Deus leva-nos ao caminho da perfeição na mesma medida que andar em Sua presença aponta de forma clara as nossas imperfeições. 

No processo de santidade o pecado precisa ser denunciado. Não nos tribunais humanos ou nas conversas de bastidores, mas no encontro do pecador com Jesus. Um dos grandes desafios cristãos é definirmos o pecado biblicamente (aquilo que terrivelmente nos afasta de Deus) e não sociologicamente, em uma escala de intensidade daquilo que é mais ou menos aceito pela sociedade. Ao falarmos de pecado vem à nossa mente o que rotulamos como pior ou inaceitável, como o roubo, a traição e o assassinato. Outras sociedades também possuem suas compreensões do pecado em diferentes graus de intensidade. Entre os Konkombas de Gana o maior pecado é mentir. Entre vários indígenas da Amazônia é ser avarento, ou sovina, como se referem. É preciso, porém, observar que o pecado, mesmo não embutido de um simbolismo socialmente degradante, igualmente nos afasta de Deus. Facilmente censuramos a embriaguez, mas não confrontamos a gula. Apontamos para a falta de domínio próprio nas explosões físicas e verbais, mas convivemos pacificamente com a inveja. Iramos contra a corrupção pública, mas somos tolerantes com as trocas e a manipulação política na igreja.

Quando Paulo nos advertiu dizendo que a carne luta contra o Espírito e este contra a carne, enfatiza que não derrotaremos a carne lutando contra a carne. A carne será derrotada ao sermos cheios do Espírito (Gl 5.17). Isto não dilui a necessidade de estarmos alertas, pois somos encorajados a resistir ao pecado (1Co 10:13), visto que o pecado está à porta e a nós cumpre dominá-lo (Gn 4.7). Significa que os processos de transformação que contrariam a carne se darão pela presença e atuação do Espírito Santo em nossas vidas – e  possivelmente uma das primeiras ações do Espírito é injetar repúdio ao pecado em nosso coração. O maior passo para uma vida íntegra e santa é sermos cheios do Espírito. 

Homens maduros e com longo tempo de liderança do povo de Deus sistematicamente nos alertam para o cuidado com a vida devocional. Richard Cecil expressa que o principal defeito dos ministros cristãos está centrado na deficiência quanto ao hábito devocional. Edward Bounds, citando Robert Murray McCheyne em seu belo texto ‘Comece o dia em oração’ , alerta: “Eu sinto que é muito melhor começar com Deus – ver a Sua face primeiro, elevar a minha alma para junto do Senhor – antes de me aproximar dos outros”.

João Calvino, reformador e teólogo, registra nas ‘Institutas da religião cristã’ que “Nós não somos nossos, portanto não definamos nossos próprios planos e caminhos de acordo com a nossa vontade. Nós não somos nossos, portanto lutemos para esquecer de nós mesmos e de tudo o que é nosso. Somos de Deus, vivamos para Ele e morramos para Ele. Somos de Deus, assim deixemos que a Sua sabedoria guie nossas ações. Somos de Deus, portanto busquemos que o maior alvo de nossas vidas seja, em todas as coisas, irmos ao Seu encontro”.  

Para os líderes cristãos uma das maiores barreiras para uma vida devocional é o próprio ministério. Por possuirmos um envolvimento integral com o ministério é fácil não termos tempo para a oração, leitura e reflexão pessoal e devocional na Palavra, pois estamos ocupados trabalhando para Ele. Tento manter minha mente dirigida pelo comentário de Jesus sobre Marta e Maria . O trabalho que Marta realizava era legítimo, valioso e honroso. Era para o Mestre. Ela desejava ter a casa arrumada e a comida pronta. Ela desejava servir a Jesus e o fazia com competência. Maria, porém, estava aos Seus pés e esta escolheu a melhor parte. O serviço que posso prestar para o Senhor jamais deve substituir minha vida com Ele e meu tempo com Ele. A melhor parte a que Jesus se refere não está ligada tão somente ao desejo do Mestre, mas sim à necessidade de Maria. Ela precisava estar aos Seus pés. 

A melhor parte não é apenas um ritual que agrada a Deus, mas também um elemento que sacia a nossa alma e nos dá direção. Sem estarmos com Ele, o serviço eventualmente também perecerá. Teremos perdido a visão do alto, o rumo certo, as motivações bíblicas que antes estavam em nossos corações, a brandura no relacionamento, a paixão por Ele e pelos perdidos. Teremos, enfim, apenas uma casa bem arrumada, com uma mesa posta, bonita, e comida quente. E só.

Devemos lidar com o pecado tanto em uma esfera subjetiva, suas motivações e tendências, como de forma prática e objetiva. C. S. Lewis nos fala sobre o auto engano que interage com o pecado quando afirma que “um homem mediocremente mau sabe que não é muito bom; um homem inteiramente mau pensa que é justo ”. Expõe, assim, a mundana tendência de lidarmos com o pecado através de ilusões e fantasias, não da verdade.

Creio que boa parte dos problemas ligados à vida cristã, liderança e relacionamentos, são resultado de questões espirituais. Observando de longe percebe-se o conflito entre pessoas, a dificuldade em perdoar, a complexidade das demandas, a intolerância pessoal e os erros recorrentes. A raiz desses processos, porém, é espiritual. Não são consertados por livros de autoajuda ou pelo estudo das 20 regras para tornar-se um bom cristão. São coisas do coração. Boa parte dos conflitos que drenam nosso tempo e energia não aconteceriam se, na luta contra o pecado, tivéssemos uma vida devocional melhor – se estivéssemos aos Seus pés e não apenas arrumando a casa. 

Ronaldo Lidório
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quinta-feira, 25 de maio de 2017


                                                                       
                                                                       ENTREGA


Deixe pra lá! Releve! Perdoe!
   Tenho percebido que essas são palavras difíceis para algumas pessoas, e fáceis para outras. E o que está por trás dessas atitudes me intriga.
   Parece que algumas pessoas têm uma grande capacidade de “deixar pra lá, de relevar uma ofensa, de esquecer um agravo." É como se não se apegassem às coisas. Na hora da perda, não sofrem muito. Porém, não lutam tanto pelo que acham importante. Sem luta, não há vitória.
   Outras parecem incapazes de abrir mão. Então, tudo o que a vida lhes tira, produz a dor de um assalto, de uma violência.
    Entre estas últimas, as que mais me chamam atenção são aquelas que não “abrem mão” de suas razões. Seja em uma simples conversa, que acaba em discussão, seja em uma questão de direito, apegam-se às suas razões até às lágrimas. E se, após muitas lutas, essas coisas lhe são “tomadas”, entram em desespero de morte.
     As pessoas do primeiro grupo sofrem menos, por não se apegarem demasiadamente. Não lutam tanto, não retêm tanto. Não perdem muito, mesmo quando são abusadas.
      Entretanto, conheço gente que é capaz de se lembrar de todas as violências sofridas ao longo da vida. Coisas que lhe foram tiradas, batalhas perdidas, conversas encerradas, desconsiderações, injustiças, votos vencidos, estão todos lá, no depósito de passivos, de haveres, aguardando ressarcimento.
        Sim, a vida (que acaba assumindo nomes de pessoas) lhes deve. Se algo nunca foi entregue, então lhes foi tomado. Se nunca foi perdoado, ainda é “dívida ativa”. Se nunca foi esquecido, está registrado para oportuna cobrança.
         Talvez uma pessoa assim considere aquele que “deixa pra lá” um leviano. E talvez o que releva e esquece considere aquele que não “abre mão” um infeliz briguento.
         Lembro-me de ter “deixado pra lá” direitos de consumidor, só para não arranjar briga. Porém, lembro-me de ter “pendurado” ofensas, aguardando o pedido de desculpas. Recordo-me de ter dado razão a quem não a tinha, para preservar a amizade, e de ter “aberto mão” da amizade por não achar justo “deixar barato”.
         Certa vez, deparei-me com uma frase usada em um curso para noivos: “O que você prefere: ter razão ou ser feliz?” – como que a dizer que, se eu quisesse ter sempre razão, seria infeliz! Será que essa pergunta não nos ajudaria a definir melhor a qual grupo pertencermos?
          Eu confesso: naquele exato momento me descobri preferindo ter razão. E argumentei para mim mesmo que a felicidade, à custa do que é certo, não vale a pena. Senti-me como a formiga invejosa, criticando a alegria “irresponsável” da cigarra.
          Nesse momento, ouvi a palavra de Paulo aos coríntios conflagrados: “[...] por que não sofreis, antes, a injustiça? Por que não sofreis, antes, o dano? (1 Co. 6.7).
          Ocorre-me então que talvez a atitude correta não seja o “deixar pra lá”, mas a entrega. Em vez de esquecer, entrego meus direitos, bens e razões ao reto juiz. Assim, as coisas não ficarão sem consequência, sem julgamento, sem resposta. Contudo, estarei “deixando pra lá”, em um ato de fé, para ser feliz.
          Imagino que, por este caminho, Deus me acrescentará o orar pelos meus inimigos e me alegrará ao vê-los abençoados.

Por Rubem Amorese (Revista Ultimato).
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terça-feira, 9 de maio de 2017

                                             
                                               BEBER OU NÃO BEBER

"Pois veio João, que não comia nem bebia, e dizem: Tem demônio! Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: Eis aí um glutão e bebedor de vinho..." (Mateus 11.18,19).

Para quem não está resolvido quanto a questão do antigo vício, este comentário de Jesus é um aparente respaldo para acalmar a consciência que tenta a cada rodada convencer-lhe do perigo eminente. Não queremos questionar aqui qual a bebida que contém maior ou menor teor de álcool, ou que tenha alguns benefícios comprovados para a saúde do homem, mas sim sobre o vício velado que impulsiona os “dependentes sociais” a beberem até que nos seus olhos transpareçam a sua verdade.
Jesus, comprovadamente, tinha o controle sobre si mesmo e seus apetites. Ele poderia ser bom de garfo e gostar de vinho, mas sua biografia é indubitável. Ele sempre esteve plenamente sóbrio e tão lúcido que seus invejosos inimigos chegaram algumas vezes ao ponto de pegarem pedras para apedrejá-lo por suas afirmações e respostas sábias e claras em qualquer controvérsia, ainda em uma mesa festiva, quando o vinho era servido em abundância.

Interessante que ninguém que seja dado a bebida procura seguir o exemplo do grande profeta João Batista ou de algum outro nazireu...

"Ditosa, tu ó terra cujo rei é filho de nobres e cujos príncipes se sentam à mesa a seu tempo para refazerem as forças e não para a bebedice" (Eclesiastes 10.17).

Feliz realmente o povo que tem um líder sábio, que diz não a sua liberdade por amor as suas ovelhas, especialmente aquelas que um dia lutaram com garra contra a desgraça do vício, mas que com um simples aperitivo, incentivado pela liberalidade do seu guia, poderão voltar ao poço. Lembrando que muitos líderes um dia também foram viciados e, sendo “carne”, não estão livres de volverem a lama.

Ouvi o desabafo de uma adolescente contra os líderes da sua igreja dizendo que, ao beberem, contribuíam para que continuasse vivo o espírito de alcoolismo em seu pai, que, por conseguinte, perdera toda autoridade para os seus irmãos, que se envolveram não só com bebida, como também com drogas. Deixando-lhes também dúvidas quanto a eficácia de uma conversão genuína, libertadora, que compromete o cristão a andar como Jesus andou.


"E estes também cambaleiam pelo efeito do vinho, e não param em pé por causa da bebida fermentada. Os sacerdotes e os profetas cambaleiam por causa da bebida fermentada e estão desorientados devido ao vinho; eles não conseguem parar em pé por causa da bebida fermentada, confundem-se quando tem visões, tropeçam quando devem dar um veredicto." (Isaías 28.7).
Este quadro entendemos que foi se desenhando à medida que eles se iam afastando inconsequentemente da santidade e considerando normal, sem inconveniências, os seus procedimentos. Tragamos a memória o lamento de Deus através do profeta Jeremias: "O meu povo tem sido ovelhas perdidas; seus pastores as fizeram errar e as deixaram desviar para os montes; do monte passaram ao outeiro, esqueceram-se do seu redil. Todos os que as acharam as devoraram; e os seus adversários diziam: Culpa nenhuma teremos; porque pecaram contra O Senhor, a morada da justiça, e contra a esperança de seus pais, O Senhor." (Jeremias 50.6,7).

"Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo como o seu senhor...” (Mateus 10.25).

“Vem, façamo-lo beber vinho, deitemo-nos com ele e conservemos a descendência de nosso pai.” (Gêneses 19.32).

Não conheço outra passagem na Bíblia em que a intenção de embriagar alguém fosse para honrá-lo, mesmo assim, salvas por uma cultura...

Dificilmente os que um dia se perderam pelas veredas tortuosas do vício, e se converteram realmente dos seus caminhos, ao Senhor, dominam sua carne quando "se deixam tentar pelo vinho quando se mostra vermelho, quando resplandece no copo e se escoa suavemente. Pois ao cabo morderá como a cobra e picará como o basilisco." (Provérbios 23.31). Uma vez inebriados, estão expostos a situações vexaminosas, quando não, a cometerem violência ou sofrerem até mesmo a morte.


É com a autoridade de quem durante vinte anos consecutivos trabalhou com o Ministério Peniel, que lida com recuperação de viciados que afirmo esta verdade.

“Absalão deu ordem aos seus moços, dizendo: Tomai sentido; quando o coração de Amnom estiver alegre de vinho, e eu vos disser: Feri a Amnom, então, o matareis. Não temais, pois não sou eu quem vo-lo ordena? Sede fortes e valentes." (2 Samuel 13.28).

“A sensualidade, o vinho e o mosto tiram o entendimento.” (Oséias 4.11).

Por Guiomar Barba
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segunda-feira, 8 de maio de 2017

                                       (Meu chamado para o ministério com viciados em drogas)



                               ESCOLHIDA
Ouve, filha, vê e dá atenção: esquece a casa do teu pai.
O Rei foi cativado pela tua formosura. Ele te escolheu.
Siga-O pelos caminhos áridos ou lavradios.
Inclina-te perante Ele e conhecerás a sabedoria.
Talvez experimentarás a solidão dos desertos,
Ficarás queimada pelos raios de um sol causticante.
Mas não te esqueças: Foi no deserto que Israel
Provou do maná, bebeu de fontes sagradas.
O Rei tem a voz como o som de muitas águas.
Ele cavalga altaneiramente nas asas dos ventos,
Faz dos seus ministros labaredas de fogo.
Manda mensagens secretas ao teu espírito.
O Rei é totalmente misterioso e mui atraente.
O mar, as ondas furiosas e os raios, lhe obedecem.
Ele te protegerá como a menina dos seus olhos.
Nas palma das suas mãos Ele te gravou.
Inclina-te perante Ele, segue-O confiante.
Entrega-te ao seu amor, ao seu bem querer.
Porque Ele é lindo, forte, totalmente desejável.
Nos seus braços encontrarás eterno refúgio.
Por Guiomar Barba
03.05,2017.
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terça-feira, 18 de abril de 2017

                                                   É PRECISO PERDOAR

“Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou.” (Colossenses 3.13)

Perdoar significa ir ao encontro da dor; a dor que machucou e destruiu. Perdoar significa chorar e reconhecer o estrago feito na alma.

Perdoar significa decidir fechar a porta do passado e nunca mais abri-la. Quem perdoa zera as contas do passado. Quem perdoa deixa ir o ofensor. Quem perdoa assume diante de Deus e com boa atitude o ônus da história.

Perdoar é algo irracional aos olhos humanos porque é uma decisão e não uma emoção.

Perdoar é fazer uma faxina no coração; é prover a cura das memórias; é propor uma amnésia dos erros sentidos, na força e no poder de Deus pelo amor.

Quem perdoa decide obedecer a Deus, que diz: “perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra o outro.”
Quem perdoa reconhece que só Deus tem o direito de julgar e tratar a pessoa e a situação.

Quem perdoa reconstrói em si a destruição deixada.

Quem perdoa diz não ao sentimento e a mágoa.

Quem perdoa deixa a graça prevalecer e não a vingança. Quem perdoa reconhece a fraqueza humana e vê com misericórdia o ofensor.

Perdoar é difícil porque custa caro. Custa o ego; custa o orgulho; custa a sinceridade para dizer que doeu, custa a humildade para também se ver diante de Deus e reconhecer as grandes e horrendas ofensas cometidas contra Ele. Por isso vá a Deus, se veja perante Ele e peça perdão. Depois viva sem se proteger e saia para a vida pronto a perdoar a qualquer um que lhe ofendeu. Saia para a vida disposto a fazer do perdão um estilo de vida.

É preciso perdoar.

 “Mas se não perdoarem uns aos outros, o Pai celestial não lhes perdoará as ofensas". (Mateus 6:15).

Autor desconhecido.
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segunda-feira, 13 de março de 2017


               "A avenida nos espera!"

Por Hermes C. Fernandes
(extraído do Facebook)

"Não porei coisa má diante dos meus olhos" (Salmos 101:3). Este foi o versículo bíblico usado por um tele-pastor que aproveitava o carnaval para convencer sua audiência a fazer a assinatura de seu canal. Outros se aproveitam da época para promover retiros que custam até um salário mínimo. Longe da TV e das ruas, os fiéis seriam mantidos guardados do pecado. Será? Há quem ensine que ao permitir que tais "coisas más" entrem nossa casa, estaríamos dando "legalidade" a todo tipo de espíritos malignos. Alguma base bíblica sólida para isso? Não!

Parafraseando Jesus, se nossos olhos forem bons, tudo será luz, mas se forem maus, estaremos em maus lençóis. Para Paulo, "todas as coisas são puras para os puros" (Tt.1:15). O mal não está na avenida! O mal está em nós, em nossa presunção, em nossos falsos escrúpulos, em nosso moralismo exacerbado. Portanto, se não para por coisa má diante dos nossos olhos, nunca mais nos olhemos no espelho. A recomendação de Paulo é que examinemos de tudo, mas retenhamos somente o que for bom (1 Tessalonicenses 5:21).

Afinal, haveria algum problema em assistir ao desfile das escolas de samba? Estou convencido que não. Cabe a cada um examinar sua própria consciência e verificar se isso lhe convém ou não. Afinal, "todas as coisas nos são lícitas, mas nem todas nos convém". O que convém a um, nem sempre convém ao outro. Porém, aquele que assiste, não deve condenar o que não assiste e vice-versa.

Outra questão: e se tomássemos o desfile do Carnaval como analogia de nossa caminhada cristã? Certamente, a maioria discordará com veemência. Afinal de contas, o Carnaval é a festa pagã por excelência, onde, além de toda promiscuidade, entidades pagãs são homenageadas. Eu poderia gastar muitas linhas tecendo críticas justas a esta festa em que tantas famílias são desfeitas, e inúmeras vidas destruídas. Porém hoje, quero pegar a contramão.

Por que será que os cristãos sempre enfatizam os aspectos ruins de qualquer manifestação cultural? Se vivêssemos nos tempos primitivos da igreja cristã, como reagiríamos ao fato de Paulo tomar as Olimpíadas como analogia da trajetória cristã neste mundo? Ora, os jogos olímpicos celebravam os deuses do Olimpo. Portanto, era uma festa idólatra. Os atletas competiam nus. Sem contar as orgias e os sacrifícios que se seguiam às competições. Sinceramente, não saberia dizer qual seria pior, as Olimpíadas ou o Carnaval. Porém Paulo soube enxergar alguma beleza por trás daquela manifestação cultural. A disposição dos atletas, além do seu preparo e empenho, foram destacados pelo apóstolo como virtudes a serem cultivadas pelos seguidores de Cristo.

E quanto ao Carnaval? Haveria nele alguma beleza, alguma virtude que pudesse ser destacada do meio de tanta licenciosidade? Acredito que sim. Embora jamais tenha participado, talvez por ter nascido em berço evangélico tradicional, posso enxergar alguma ordem no meio do caos carnavalesco.

Destaco, em primeiro lugar, a criatividade dos foliões, principalmente dos carnavalescos na composição das fantasias, dos carros alegóricos, e do samba-enredo. É notória sua busca pela perfeição. Diz-se que o desfile do ano seguinte começa a ser preparado quando termina o Carnaval. É, de fato, um trabalho árduo que demanda muito empenho. Se houvesse por parte de muitos cristãos uma parcela da dedicação encontrada nos barracões de Escolas de Samba, faríamos um trabalho muito mais elaborado para Deus. Buscaríamos a excelência, em vez de nos contentar com tanta mediocridade. Tomemos por exemplo as composições musicais. Basta ouvir algumas estrofes para perceber o trabalho de pesquisa que envolve a composição de um samba-enredo. Sem contar as rimas ricas, as melodias marcantes, e a ousadia criativa das baterias. Enquanto isso, composições que visam louvar a Deus estão cada vez mais pobres, tanto do ponto de vista melódico, quanto do ponto de vista lírico. Não aguento mais temas repetitivos, tais como chuva, fogo, anjos e etc.

O desfile começa com a concentração. É ali que é dado o grito de guerra da Escola, seguido pelo aquecimento dos tamborins. A concentração equivale à congregação. Nosso lugar de culto (comumente chamado de “templo” ou “igreja”) é onde nos concentramos e aquecemos nosso espírito. Porém, a obra acontece lá fora, “na avenida” do mundo.

Gosto quando Paulo fala que somos conduzidos por Cristo em Seu desfile triunfal. O apóstolo compara a marcha cristã pelo mundo às paradas triunfais promovidas pelo império romano. Era um espetáculo cruento, no qual os presos eram expostos publicamente, acorrentados e arrastados pelas ruas da cidade. Era assim que Roma exibia sua supremacia, e impunha seu poder. Paulo toma emprestada a figura deste majestoso e horroroso evento para afirmar que Cristo está nos exibindo ao Mundo como aqueles que foram conquistados por Seu amor.

Muitos cristãos acreditam ingenuamente que a guerra se dá na concentração. Por isso, a igreja atual é tão ensimesmada, isto é, voltada para dentro de si. Ela passou a ver-se como um fim em si mesmo.

A avenida nos espera!

Encabeçando o desfile vai a comissão de frente, seguida pelo carro abre-alas. Compete aos componentes dessa comissão a primeira impressão. A comissão de frente da igreja de Cristo é formada pelos que nos precederam, que abriram caminho para as novas gerações. Não podemos permitir que caiam no esquecimento. Também são os missionários, que deixam sua pátria para abrir caminho em outros rincões. Grande é sua responsabilidade, e alto é o preço que se dispõem a pagar para que o Evangelho de Cristo chegue à populações ainda não alcançadas. Paulo fazia parte da comissão de frente da igreja primitiva. Escrevendo aos Coríntios, ele diz que sua missão era“anunciar o evangelho nos lugares que estão além de vós, e não em campo de outrem” (2 Co.10:16). Em bom português, o apóstolo dos gentios preferia pescar em alto mar, e não no aquário dos outros.

A Escola de Samba é dividida em alas, cada uma com fantasias e carro alegórico próprios. Porém, o samba-enredo é o mesmo. O que é cantado lá na frente, é sincronicamente cantado na última ala da Escola. A voz do puxador do samba, bem como a batida harmoniosa da bateria, ecoando por toda a avenida, garantem esta sincronia. Não pode haver espaços vazios entre as alas. Há harmonia até nas cores das fantasias. Ninguém entra na avenida vestido como quiser. Imagine se as variadas denominações que compõem o Corpo Místico de Cristo se relacionassem da mesma maneira, respeitando cada uma o espaço da outra, porém dentro de uma evolução harmoniosa.

No meio do desfile encontramos o casal formado pelo mestre-sala e pela porta-bandeira. Eles exibem orgulhosamente o pavilhão da Escola. Seus gestos e passos são cuidadosamente combinados, para que a bandeira receba as honras devidas. É triste verificar o quanto a bandeira do Evangelho tem sido chacoalhada, pois os que a deveriam ostentar, são os primeiros a desonrá-la com seu mal testemunho. Enquanto que os cristãos primitivos se dispunham a pagar com a própria vida para que seu testemunho de fé fosse validado e o nome de Cristo fosse honrado.

Ao término do desfile chega o momento da dispersão. É hora de partir, levando a certeza de que todos deram o melhor de si. Alguns saem machucados, com os pés sangrando, com as forças exauridas. Mas todos saem alegres, esperançosos de que sua escola seja a campeã. Aprenderam a sublimar a dor enquanto desfilam. Ignoram o cansaço. Vencem os limites do seu corpo. Tudo pela alegria de ver sua escola se sagrando campeã. Mas no fim, chega a hora de tirar a fantasia, descer dos carros alegóricos, cuidar das feridas nos pés. Mesmo assim, ninguém reclama. Todos exibem no rosto um sorriso de contentamento.

Semelhantemente, todos estamos a caminho do fim do desfile. O momento da dispersão está chegando, quando deixaremos este corpo, nossa fantasia, e seremos saudados pela Eternidade. Que diremos nesta hora? Não haverá novos desfiles. Terá chegado o fim de nossa trajetória? Não! Será apenas o começo de uma nova fase existencial. Deixaremos nossas fantasias, para nos revestirmos de novas vestes celestiais. Falaremos como Paulo em sua carta de despedida a Timóteo:

“...o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda” (2 Tm.4:6b-8).

Aproveitemos os instantes em que estamos na avenida desta vida, celebremos a verdadeira alegria, infelizmente ainda desconhecida por muitos foliões, e que não terminará em cinzas.
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