quarta-feira, 5 de março de 2008

A PRETERIDA


“Respondeu Labão: Não se faz assim em nossa terra, dá-se a mais nova antes da primogênita.”
Mui triste é a história de Lia, esta mulher preterida por Jacó, mas que era amada do Senhor e que soube superar o sofrimento com uma dignidade rara.
Lia era vítima de uma cultura terrivelmente injusta, que invertia os valores em detrimento das mulheres, o que não é raro ainda nos paises orientais e infelizmente ainda acontece no ocidente orgulhoso pelo seu desenvolvimento.
Jacó amava extremamente Raquel, a irmã mais nova de Lia, e por ela havia trabalhado sete anos consecutivos, os quais lhe parecera como poucos dias, pelo muito que a amava.
Chegado o dia das núpcias, Labão, pai de Raquel, reuniu todos os homens do lugar e deu um banquete no qual Jacó com certeza bebeu a ponto de perder a percepção; à noite então, Labão conduziu sua filha Lia e a entregou a Jacó e eles coabitaram.
“Ao amanhecer viu que era Lia. Por isso, disse a Labão: Que é isto que me fizeste? Não te servi eu por amor a Raquel? Por que, pois, me enganaste?”

Não podemos nem sequer imaginar a dor de Lia, servindo a um desumano e cruel costume por uma determinação daquele que deveria amá-la, respeitá-la nos seus sentimentos e que, no entanto, friamente, limitou-se a contestar: “Decorrida a semana desta, dar-te-emos também a outra, pelo trabalho de mais sete anos que ainda me servirás.”
O que restava a Lia se não lutar para conquistar o amor daquele homem que talvez nem percebesse o quanto ela fora violentada na sua alma e a preteria claramente, acrescentando amargura a sua humilhação?
Deus, no entanto, não perde de vista nem um dos Seus filhos: “Vendo O Senhor que Lia era desprezada, fê-la fecunda; ao passo que Raquel era estéril.”
Exatamente com a maternidade, a guerra entre as duas irmãs se faz evidente. Raquel não conformada, ardendo em ciúmes de sua irmã, clama a seu marido: Dá-me filhos, senão morrerei! E como Jacó, irado, respondeu-lhe que não estava no lugar de Deus para abrir-lhe a madre, ela, remoendo-se em sua emulação, oferece-lhe sua criada para que, coabitando com ela, lhe gerasse filho.
A história se repete, mais uma vez, não só esta mulher, como uma criada de Lia, foram também sacrificadas em nome de um costume desapiedado.

Esta guerra insana chega ao ponto crucial para Lia, que determinada na sua batalha, põe o seu objetivo acima da humilhação.
Rúben, filho de Lia encontrou no campo mandrágoras e as trouxe a sua mãe. Então disse Raquel a Lia: Dá-me das mandrágoras do teu filho.
Respondeu-lhe ela: Achas pouco o me teres levado o marido? Tomarás também as mandrágoras de meu filho? Disse Raquel: Ele te possuirá esta noite, a troco das mandrágoras de teu filho.
Á tarde, vindo Jacó do campo, saiu-lhe ao encontro Lia e lhe disse: Esta noite me possuirás, pois eu te aluguei pelas mandrágoras de meu filho. E Jacó naquela noite coabitou com ela gerando assim seu quinto filho.

A luta não parou ai. Raquel alcançou também o favor do Senhor e gerou dois filhos: O grande José, que se tornou governador do Egito, e Bejamim, de quem tomou o nome uma das doze tribos de Israel, sendo que seu nascimento causou a morte da amadíssima Raquel e o amor preferencial de Jacó pelos filhos que tivera com ela.
Enquanto Raquel impressionara Jacó pelo belo porte e beleza, Lia tinha os olhos baços, o que não a tornava atraente. No entanto, não se deixou conduzir por uma baixa auto–estima, continuou firme na demanda pelo amor do seu marido. Ao conceber o sexto filho, esperançou: “Deus me concedeu excelente dote; desta vez permanecerá comigo meu marido, porque lhe dei seis filhos;”

Foi uma luta sem tréguas. Mas o mais doloroso em toda esta história é perceber como a mulher vivia, e vivem muitas ainda hoje, enclausuradas na monstruosidade das determinações machistas e, sem opções, digladiam-se mutuamente impedindo um convívio harmonioso, que beneficiaria plenamente a classe, ou silencia a sua mágoa anulando-se no dia a dia.

Aquelas irmãs foram tatuadas na alma pela mesma dor. Elas exprimiam o que ainda fazia sangrar os seus corações quando fugiam com Jacó da casa do pai: “Então, responderam Raquel e Lia e lhe disseram: Há ainda para nós parte ou herança na casa de nosso pai? Não nos considera ele como estrangeiras? Pois nos vendeu e consumiu tudo o que nos era devido?”
A cultura não amolda a nossa alma. Quando se trata de danar a nossa dignidade todo nosso ser se rebela, ainda que o medo o faça calar. Temos também princípios morais impressos em nós por herança Divina.
Lia, no seu arrojo, não abriu mão do seu objetivo. Embora lhe sangrasse o coração, ela tinha o direito de ser amada e não abdicou dele. Guiomar Barba.





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