sábado, 5 de julho de 2008

INGRID, MINHA SURPRESA



“Quem disser que a natureza é indiferente às dores e preocupações dos homens, não sabe dos homens nem de natureza.” José Saramago.

Comecei a orar pela proteção e libertação da Ingrid a partir do dia em que recebi um e-mail de um amigo contendo a carta que ela havia escrito à sua mãe descrevendo sobre o seu terrível dia-a-dia no cativeiro.
Muitas vezes despertava pela madrugada e, não tenho dúvidas, que O Espírito Santo de Deus me trazia Ingrid ao coração e eu clamava, algumas vezes com lágrimas e gemidos para que Deus a aquecesse, alimentasse e desse a ela o privilégio de abraçar os filhos e a sua mãe que ela tanto amava.
Talvez tenha uma remota noção do que é ser refém de traficantes possessos de ódio, de desamor à vida, que têm um único objetivo: “Narcotráfico”.
Nos longos vinte anos que trabalhamos com viciados em drogas, fui designada para ir à Santa Cruz de La Sierra, Bolívia, onde abrimos um centro de reabilitação para “drogaditos”. Conhecemos pessoas que foram escravizadas em cartéis e conseguiram fugir, que viveram como verdadeiros robôs a serviço dos “soberanos.” Eles tinham pavor de abrir a boca e pronunciar uma única palavra, todo tempo olhavam para os lados como se fantasmas os perseguissem a todo o momento. Era imposto a tantos quantos trabalhassem para os donos no fabrico das drogas, não olhar sequer para a pessoa que estava ao seu lado. Conhecemos, já em outra cidade, fora de Bolívia, um dos chefes de cartel, rapaz jovem, bonito, culto e que desesperadamente queria libertar-se do cartel onde nasceu, mas sabia que isto lhe custaria a própria vida. Era como um animal acuado. Ouvi muitas histórias que me cortavam o coração.
Portanto, podia sentir um pouco da aflição da Ingrid Betancourt, empatia seria exagerar, mas havia uma comunicação do Espírito de Deus ao meu coração nas horas, creio, que mais que ela necessitava.
Estava chegando o dia do nosso aniversário, então pedimos a Deus uma surpresa. Falamos com Deus que não necessariamente algo para nós.
Exatamente no dia dois de julho, quarta feira última, eu estava na cozinha e na minha cabeça planejava uma forma de libertá-la, devaneios do coração. Mas foi exatamente poucas horas depois que meu filho gritou: mainha! Vem ver. Quando cheguei à frente do computador, mal podia acreditar, lá estava a notícia: Ingrid liberta. Soltei um grito de alegria, mas foram necessários vários minutos para cair a ficha. Então comecei a chorar, mas chorar de gratidão e alegria: minha Surpresa! Foi mais grandiosa do que qualquer coisa que mais quero e tenho pedido a Deus, segundo a nossa necessidade. Sei que meus clamores fizeram coro com muitos outros, e muitos corações puderam entoar comigo o cântico de vitória pelo livramento que Deus deu a Ingrid.
Deus estava com os olhos postos sobre aquela mulher que jamais rendeu o seu caráter ilibado à corrupção. Que conhece os desatinos dos que são vendidos às drogas e se tornam prisioneiros pelo vício dos traficantes implacáveis, que por sua vez estão também acorrentados a uma lei maldita interior, lei do “amor ao dinheiro”, que confina corpo, alma e espírito na masmorra da morte e que muitos deles também são reféns dos superiores.
"Permanecer encarcerado num ambiente tão inóspito esmaga as resistências do corpo e quebranta as forças da alma."
"Quão desumana a humanidade tem se tornado, a ponto de infligir tal pena a uma vida." Ingrid.

Sabemos que ela não vai parar. “Estou consciente dos perigos, mas estes não me farão recuar. É nisso que reside a minha esperança" diz Ingrid.
Está disposta, ladeada por seus filhos, que mal começaram a viver e já foram sacudidos pela maldade deste mundo que se deteriora, "basta conhecer a linguagem do olhar, reparar nos seus olhos todo o peso de uma dor que desde cedo tiveram que aprender a carregar nos seus peitos."(vídeo) a lutar contra o narcotráfico, contra as forças malignas que atuam neste mundo tenebroso, utilizando pessoas sem escrúpulos, que se prestam a toda e qualquer iniqüidade.
"A sua cruzada não visa apenas o resgate da sua amada mãe, é, antes, a nossa cruzada em busca do resgate da nossa humanidade perdida na selva do esquecimento."(vídeo)
Emocionei-me lendo sua carta, percebendo o quanto ela ama a Deus e como em nenhum momento ela questionou o amor dEle por ela. Jamais se deixou amargurar pela situação lastimável que estava embora sem culpa. Atribuiu a Deus o direito de decidir sobre o seu destino, reconhecendo a Sua soberania e fidelidade. "Caso contrário, e se Deus decidir de outra forma, nos encontraremos no céu e Lhe agradeceremos por Sua infinita misericórdia.” Ingrid.
Procurou tirar as melhores lições do cativeiro, reconhecendo a sua finitude. "A cada dia, resta um pouco menos de mim mesma." Percebeu toda fragilidade e impotência que lhe faziam refém como nenhum ser humano poderia fazê-la e, embasada em todas as lições, aconselhou os seus filhos a serem simples e valorizarem sempre as coisas que irão consigo para a eternidade. “Deus nos enviou essa prova a fim de que saiamos dela maiores, sejamos humanamente melhores e descartemos tudo que é inútil e estorva a alma.”
“Viver é isso: crescer para se pôr ao serviço dos outros.” Ingrid.

As longas conversas que manteve com seu pai, nas quais por vezes discorreram sobre a situação confortável da família na Europa e o sofrimento por que passa grande parte da população de sua terra natal, certamente contribuem na sua decisão de regressar à Colômbia.
Ingrid resolve seguir o chamado do seu coração, ciente de todos os riscos e desafios que tal decisão acarreta. (vídeo).


Trecho da sua carta:
Mamita estou cansada, cansada de sofrer. Fui, ou tentei ser, forte. Esses seis anos ou quase de cativeiro demonstraram que não sou nem tão resistente, nem tão corajosa, inteligente e forte quanto pensava. Travei muitas batalhas, tentei a fuga diversas vezes, procurei manter a esperança como mantemos a cabeça fora d'água. Mas hoje, mamita, sinto-me vencida. Eu gostaria de pensar que um dia sairei daqui, mas percebo que o que aconteceu com os deputados (3), e que me deixou arrasada, pode acontecer comigo a qualquer momento. Acho que seria um alívio para todo mundo. Sinto que meus filhos levam uma vida em suspenso na expectativa da minha libertação, e o seu sofrimento diário, o de todo mundo, faz com que a morte me pareça uma opção amena. Juntar-me a papai (4), por quem permaneço de luto: todos os dias, há quatro anos, choro a morte dele. Continuo a acreditar que vou acabar parando de chorar, que agora cicatrizou. Mas a dor volta e se lança sobre mim como um cão desleal, e torno a sentir meu coração se espatifar em mil pedaços. Estou cansada de sofrer, de carregar essa dor comigo todos os dias, de mentir para mim mesma achando que tudo vai terminar e constatar que cada dia equivale ao inferno do dia anterior. Penso nos meus filhos, nos meus três filhos, em Sébastien (5), em Mela e em Loli (6). Muita vida se esvaiu por entre nós, como se a terra firme houvesse sido tragada pela distância. Eles são os mesmos e não são mais os mesmos. Cada segundo da minha ausência, em que não posso estar aí dedicada a eles, para tratar suas feridas, aconselhá-los, dar-lhes força, paciência e humildade para enfrentar a vida, todas essas oportunidades perdidas de ser mãe envenenam meus momentos de infinita solidão, é como se me injetassem cianureto nas veias, gota a gota. (Ingrid).

“Ajude-me a suportar o que não posso compreender. Ajude-me a mudar o que não posso suportar.” São Francisco de Assis.

Ingrid, na verdade, é para todos nós uma lição de vida, um estímulo para lutarmos por aqueles que estão morrendo nos cárceres das drogas.
Pra. Guiomar Barba.



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2 comentários:

Thaís disse...

Aleleuiaa!!!!
Irmã,eu também fiquei extremamente feliz ao ver a libertação da Ingrid! Graças ao nosso Senhor que tudo correu bem,sem feri-la!

Agora precisamoa orar por aqueles que ainda estão lá em cativeiro,correndo risco de vida.

Que todos eles,em nome de Jesus,possam ter essa mesma alegria de Ingrid...LIBERDADE!

No Senhor,
Thaís

Manoel disse...

Guio muito lindo o que você escreveu e toda a sua dedicação em oração pela vida da Ingrid. Que o nosso Deus seja louvado por essa vitória. Só gostaria de salientar a importância para que possamos continuar em oração pelos outros tantos reféns que continuam naquele cativeiro.
Que o Senhor tenha misericordia deles.
Te amo muito Guiooo...
Beijosss
Claudinha

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