domingo, 12 de abril de 2009

LIBERTEM-NA

Lá estava ela, jovem, cheia de vida, dançando com todo seu ser aquela bela dança típica da região. Seu olhar, a coreografia do seu corpo, tudo me dizia que
havia um segredo no seu coração. Fora adotada, sua mãe biológica havia sido forçada a ir para um país distante, deixando para traz o homem a quem amava. Levava no seu ventre o fruto daquele amor, que por decisão dos pais deveria ser doado sem que ela pudesse sequer vê-lo. Castigo cruel, inconcebível; no entanto, determinada, ela recusou a assinar o documento de doação se primeiro não tomasse nos braços seu bebê. E ao fazê-lo, sussurrou-lhe ao ouvido: Você vai, mas a minha alma irá presa a você. Seu bebê foi adotado por uma família que emigrara para o país do seu desterro. O tempo passou. Ela constituiu uma nova família em lugar daquela que lhe fora dissipada, mas seu coração de mãe continuou aguardando o encontro com a filha banida pelos avós maternos... Agora, essas duas mulheres esmagdas por uma injustiça desumana, “coincidentemente” decidiram na mesma época enviar seus dados para um órgão que proporciona encontros entre familiares desaparecidos... Não demorou o reencontro... Lá se ia minha amiga, na mais plena alegria, conhecer a sua mãe biológica, que jamais esquecera sua preciosa filha. Sabe Deus porquê, no mesmo país, em outra cidade bem perto à sua mãe, vivia solteiro e solitário, numa longa espera, o homem que ela elegera, apesar da idade, amar e compartilhar dores e alegrias, e que jurara junto com ela um amor eterno. Regressou minha amiga com o seu coração aberto, o segredo saltando nos lábios, soluçava deitada no meu colo, mostrou-me belas fotos que tirou junto ao seu amado no refúgio que abrigou seus abraços e desabafos em encontros de almas e corpos ávidos de amor. Mas, ela estava casada, tinha três filhos e um marido apaixonadíssimo, sobrinho do seu pai, arranjado por pirraça, porque lhe haviam arrebatado do país onde deixou seu coração, seu amor de verdade, com quem ela casara sem papel, sem aliança, oferecendo seu corpo, sua alma e o seu espírito virgens para a copulação do amor. Encontrei-me em um impasse. Seu “marido” buscava aliviar seu coração comigo, muitas vezes, em silêncio, deixava grossas lágrimas escorrerem sobre seu rosto sombrio. Ele havia sido avisado pelos pais da minha amiga para não casar com ela, porque o seu coração estava atado a outra pessoa e porque ela ainda era uma adolescente... Mas no arrebatamento da paixão, ele não atentou; cria que seria um caso de despersuasão apenas. E agora, não só eles dois, mas seus filhos, pequenos ainda para compreenderem aquela situação tão dramática, tornaram-se inseguros, taciturnos, entraram em um processo de amadurecimento precoce pelo cadinho da dor. “Os religiosos acreditavam que ela deveria arrepender-se e sob penitência continuar com a farsa daquele casamento, pelo fato de haver sido realizado no altar de uma igreja...“ Senhor nosso! Seria o altar maior do que o coração do homem? Deus por acaso não falou que seria em nós que Ele tabernacularia? Ele por acaso não sondara o coração daquela garota quando ela entrara na igreja desejando que ao seu lado estivesse o seu verdadeiro amor? Não escutava seu coração quando a cada filho que lhe nascia ela ansiava pôr o nome daquele a quem amava? Não percebeu Deus que ela fora truncada na sua adolescência e que esta mutilação foi um fertilizante a mais para o sentimento que amadureceu com ela? Seria ela a única culpada e forçada a levar tão injusta e ingente carga? O verdadeiro adultério cometido não fora contra aquele com quem ela casara sem véu, sem grinalda, sem cortejo, nem festa, mas feito uma aliança em um lugar consagrado pelo amor? Não teria Deus percebido a angústia daquela adolescente quando fora forçada a vir para o país dos seus progenitores enfrentando a decisão que eles tomaram lhe roubando do seu maior bem? O homem, que embora ela admitisse não ter qualidades tão relevantes quanto aquele com quem casara na igreja, mesmo sabendo que seria uma cruz para ela levar, estaria convictamente disposta a carregá-lo porque o peso se suavizaria na subtração do amor? Não me julguem blásfema ou como quem subestima o casamento santificado no altar, mas como quem lendo os ensinamentos de Jesus descobriu que se no altar do coração não há um “sim“ saído com a mais plena sinceridade, não é o altar feito por mãos humanas que poderá autenticar ou santificar promessas e/ou juramentos dolosos. Nós mesmos somos o santuário do Deus vivente. No altar do coração da minha amiga ela havia dito “sim” a alguém antes de dizer um sim apenas labial. Era necessário, portanto, que houvesse rompimento com essa farsa, ainda que doloroso para a restauração de uma simetria existente entre os amantes. Deus sempre encontra um meio de reescrever nossa história por mais que tenhamos nos desviado no caminho. Por favor, liberem minha amiga e deixem-na viver feliz. Como no jardim do Édem, deixem que a benção de Deus santifique esta união. O Estado não impõe papéis entre cônjuges. Já foi uma questão de legalização segura, mesmo assim opcional. No entanto, a benção do altar será sempre uma repetição da benção de Deus no Jardim do Édem. “E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.” (Gêneses 1:28).



Subscribe to Our Blog Updates!




Share this article!

Nenhum comentário:

Retornar para o topo da Página
Powered By Blogger | Design by Genesis Awesome | Blogger Template by Lord HTML